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A perda que me fez virar o doido do backup

backup 21 de set de 2026

Introdução

O ano era 2011. Eu estava na casa da minha vó/meu pai, passando mais um final de semana. Lá, tinha um PC de mesa super antigo e que já era extremamente lento pra época, rodando um Windows, com pacote Office e Age of Empires. Destes, apenas o jogo era original. A internet era gatonet da favela que eles moravam. Sentei com minha vó, que já não estava muito bem de saúde, pra tentar resgatar da memória dela nomes dos irmãos, que ela não via desde que saiu do interior do Ceará, rumo a São Paulo, no começo da década de 1960. Com estes nomes, salvei a lista num documento do Word num pendrive.

A ideia original era procurar na internet estes nomes e tentar contato, pra ver se tínhamos notícias e poderia ajudá-los a encontrar parentes perdidos. Até aqui, nada de errado, né? É... Mais ou menos.

Em 2012, ela faleceu. Então, me agarrei ainda mais forte com esse arquivo e salvei o que estava neste pendrive no HD do PC da minha casa, além de manter no pendrive.

Em algum momento, emprestei esse pendrive, que acabou perdido em algum lugar do mundo. Não me preocupei, afinal ainda tinha o arquivo que poderia me ajudar a encontrar os parentes.

Avancemos no tempo e chegaremos em 2021.

Depois de algumas mudanças de casa, decidi comprar um dockstation (o mesmo do artigo da mudança pro Linux), pra recuperar os arquivos dos HDs que fui acumulando ao longo da adolescência e início da vida adulta.

Advinha? 2 HDs com falha física. Os outros, sem o arquivo. E eu nem mesmo sei se estes HDs falhando tem o arquivo.

Imagine, cara pessoa leitora, a decepção e a tristeza que eu fiquei ao perceber esse infortúnio, fruto de um descuido...


Esta longa introdução é apenas para mostrar como hoje eu mantenho um setup muito mais complexo de backup do que eu tinha há 15 anos, e como hoje em dia eu levo a sério a célebre frase do mundo da tecnologia, acerca de backups:

Quem tem dois, tem um. E quem tem um, não tem nenhum.

A perda do arquivo com o nome dos irmãos e pais da minha avó foi tão traumático, que radicalizei:

Quem tem quatro, tem um. E quem tem quatro, não tem nenhum.

Padrão Ouro

A regra mais conhecida para isso é a 3-2-1:

  • três cópias dos dados
  • em dois tipos de mídia diferentes
  • uma cópia fora da sua casa

Parece que essa regra é simples demais, mas resolve problemas de várias situações diferentes:

  • O HD pode falhar
  • O notebook pode ser roubado
  • Um ransomware pode criptografar os arquivos que estão no computador
  • Sua casa pode ter uma infiltração, curto-circuito, incêndio ou qualquer outra situação

Todas essas são circunstâncias que você considera apenas como improvável até o dia em que deixam de ser.

E, antes que alguém diga “mas está tudo no Google Drive”, vale lembrar: sincronização não é backup. Se você apagar um arquivo e a lixeira expirar, se uma pasta for sobrescrita ou se um programa fizer uma grande besteira, a sincronização provavelmente será muito eficiente em propagar essa besteira para todos os lugares.

Backup precisa de histórico, precisa permitir voltar no tempo (como de fato, um backup deve ser). E precisa ser testável e testado. Uma cópia que você nunca tentou restaurar é, na melhor das hipóteses, uma esperança bem organizada.

O que eu precisava automatizar

Fazer cópias manuais até pode funcionar por algum tempo: comprar um HD externo, arrastar as pastas importantes para lá e dormir relativamente tranquilo. Aí você esquece de fazer algum desses processos por três meses, o disco fica cheio, o cabo some ou a vida simplesmente fica corrida demais.

Era exatamente aqui que eu precisava resolver: não depender da minha memória, tempo disponível e boa vontade para proteger documentos, fotos, projetos e os demais arquivos que eu realmente não gostaria mais de perder.

O meu esquema de backup atual é mais ou menos este:

Cópia Onde fica Objetivo
Original Dispositivo principal Uso diário
Cópia local HD Externo Recuperação rápida
Cópia remota Magalu Cloud e Cloudflare R2 Sobreviver a problemas físicos locais
Cópia remota adicional Google Drive, Microsoft OneDrive e iCloud Independência em relação aos provedores acima

Pra ser eficiente, é preciso pensar que nem todo arquivo merece quatro cópias. Jogos da Steam, node_modules, vendor, imagens ISO e uma pasta de Downloads abandonada não entram na mesma categoria que documentos, fotos, materiais de aula, repositórios pessoais e arquivos que carregam uma história de família.

Backup é, também, escolher o que é importante. Do contrário, pode-se virar um acumulador digital (como eu sou, mas isso papo pra outro post).


A solução de automação

Comecei a pesquisar alguma solução que pudesse automatizar e me fazer esquecer que eu tinha a obrigação de um backup. Foi aí que encontrei o Duplicati.

Ele é uma ferramenta livre e de código aberto para criar backups incrementais, comprimidos e com criptografia, enviando-os para armazenamento local ou remoto. Na prática, ele permite usar o HD externo, o serviço S3-like e o serviços de nuvem como destino dos backups.

O ponto mais importante para mim é que ele não é um programa de sincronização com outra interface (como se fosse a versão Desktop do Google Drive ou Microsoft OneDrive); ele cria versões do backup. Depois da primeira execução, que cria um snapshot dos arquivos, as próximas execuções enviam apenas as alterações, em vez de copiar tudo novamente toda vez. Isso economiza tempo, banda e espaço.

Outro detalhe essencial: a criptografia acontece antes do envio. Ou seja, o provedor que armazena os arquivos recebe blocos criptografados, não uma pasta navegável chamada Documentos importantes do Léo, por favor não leia.

Não estou dizendo que o Duplicati é uma solução mágica. Ele não substitui um disco local, não impede falha humana e não restaura um backup que nunca foi feito. Ele apenas transforma uma parte chata e repetitiva do processo em algo agendado, versionado e verificável.

Como montei o backup

A configuração de um backup no Duplicati é bastante direta. Eu separei os dados por importância, em vez de criar uma única tarefa gigante que mistura documento, foto, projeto, cache e entulho digital.

A estrutura ficou assim:

  1. Criei uma tarefa para documentos, fotos e arquivos pessoais
  2. Criei outra para projetos e materiais de trabalho/aula
  3. Excluí arquivos que podem ser reconstruídos ou baixados novamente, como node_modules, vendor, caches, lixeiras e a maior parte de Downloads
  4. Escolhi como destino remoto o Cloudflare R2, Magalu Cloud Storage, Google Drive, OneDrive e HD externo (esse último, apenas na minha máquina física)
  5. Defini uma senha forte para criptografar o backup
  6. Guardei essa senha em um local seguro e separado do computador e do próprio backup (isso merece um parágrafo a parte, logo abaixo)
  7. Configurei uma execução (diária/semanal) e notificações para saber quando alguma coisa der errado

Perder a senha de um backup criptografado pode gerar problemas, porque não existe “esqueci minha senha” para resolver. A criptografia está fazendo exatamente o trabalho dela: impedir que qualquer pessoa — incluindo você sem a senha — leia aqueles dados.

Ou seja, essa senha precisa ser forte e não deve ser facilmente "adivinhável" (veja listas de senhas mais vazadas), assim como não deve estar salva em um arquivo de texto na área de trabalho chamado senha-backup-real-oficial.txt. Use um gerenciador de senhas e garanta que ele também tenha seu próprio plano de recuperação. Ponto.

Retenção: nem tudo precisa ficar para sempre

Outra configuração importante é a retenção: por quanto tempo as versões antigas devem ser mantidas?

O Duplicati tem uma opção chamada Smart backup retention, que tende a manter versões recentes com maior frequência e versões antigas de forma mais espaçada. É útil porque eu não preciso necessariamente ter uma cópia de todos os dias dos últimos cinco anos, mas posso precisar recuperar a versão de um documento de algumas semanas ou meses atrás (mesmo sendo um acumulador digital e querendo manter tudo que eu puder).

A regra exata depende do espaço disponível e da importância dos dados. Uma política razoável para começar pode manter:

  • uma cópia por dia na última semana
  • uma cópia por semana no último mês
  • uma cópia por mês durante um ano

A parte divertida é que, quando você começa a pensar nisso, percebe que “tenho backup” não responde quase nada. Backup de quê? Com qual frequência? Por quanto tempo? Em qual lugar? Criptografado? Restaurável?

É quase um questionário de autoconhecimento, só que com HDs e serviços de nuvem.

O teste que realmente importa

Depois de configurar qualquer backup, faço uma restauração de teste. Assim como o Chaos Monkey Engineering da Netflix, você não deveria esperar o problema aparecer na vida real pra saber se seu backup é funcional.

Não é pra esperar o computador explodir, o HD fazer barulho de grilo ou o sistema operacional decidir que é dia de atualizar no meio do trabalho. Escolho alguns arquivos, restauro em uma pasta temporária e abro o resultado.

O Duplicati também pode testar a conexão com o destino durante a configuração e verificar partes do backup após a execução, o que ajuda a identificar problemas cedo. No entanto, isso não substitui o teste mais importante: recuperar um arquivo e verificar se ele continua sendo, de fato, o arquivo que você precisava.

O objetivo de um backup não é preencher uma barra de progresso verde. É restaurar dados quando tudo deu errado.

Conclusão

Reconheço: meus setup atual e nível de paranoia não são, nem de longe, algo considerado normal (talvez seja hora de fazer terapia). Esse arranjo custa dinheiro, exige espaço, precisa de manutenção e continua dependendo de eu prestar atenção nos alertas. Talvez, daqui a alguns anos, eu mude os provedores, a ferramenta ou a estratégia.

Mas hoje ele me dá algo que eu não tinha em 2011: uma chance real de errar sem perder tudo.

Não vou recuperar o arquivo com os nomes da família da minha avó apenas por ter aprendido essa lição tarde demais. Essa é uma perda que continua existindo e eu continuo lidando com essa dor, sempre que me recordo disso. Porém, o que posso fazer hoje é não repetir o mesmo descuido com as histórias, documentos, fotos e projetos que ainda estão comigo.

Se você tem arquivos importantes, comece pequeno. Pegue uma pasta, faça uma cópia em outro lugar, teste a restauração e automatize o próximo passo. Não precisa montar um datacenter na sala de casa nem aprender a operar uma fita magnética soviética (muito específico, eu sei).

Mas, para o seu bem e o da sua sanidade mental, não deixe a única cópia da sua vida em um pendrive emprestado.

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Léo Carvalho

Léo Carvalho é desenvolvedor back-end Java no Banco do Brasil, professor de programação e falador de abobrinha. Anglicano, tem 31 anos, é pós-graduado em Ciência de dados e IA pelo Senac/DF.